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Neste momento, em plena sexta-feira de forte calor, a equipe de revisoras e diagramadores do Quatro ainda trabalha, fazendo um esforço final para o fechamento. Eles poderiam estar num bar tomando um chope, poderiam estar no cinema com seus amores, mas estão se dedicando ao jornal… A recompensa vem na forma de 24 páginas na próxima semana…

A direção do Centro de Comunicação e Expressão (CCE) já encaminhou a nota de empenho para a impressão do Quatro. O documento libera a equipe a mandar o jornal para a impressão. Nas últimas revisões, a edição está quase se tornando realidade. Agora, ninguém segura mais…

A entrevista com o Charles foi um feliz desfecho para uma saga atrás de entrevistado que se estendeu por várias semanas. Quando a turma decidiu que uma página do Quatro seria destinada a uma entrevista, os alunos optaram por Marcelo Rubens Paiva, jornalista e cadeirante. Queríamos alguma pessoa com problemas de mobilidade, já que se encaixaria com nosso tema, e por sua popularidade, Marcelo Paiva anos pareceu a melhor opção. O problema foi encontrá-lo.

Por duas semanas um colega tentou entrar em contato com jornalista via email, mas não obteve resposta. Quando o prazo para a entrevista ser feita chegou próximo ao final, Diego e eu resolvemos nos responsabilizar pela matéria. Tentamos por dois dias entrar com contato com Marcelo Paiva por um celular que nos foi passado, mas ninguém atendeu. Também enviamos emails, mas não tivemos resposta. Nossa opção foi trocar de entrevistado em cima da hora. Largamos mão de conversar com alguém famoso para procurar um personagem ilhéu, que representasse os problemas enfrentados por um florianopolitano com dificuldades de locomoção. Em uma luta contra o tempo tentamos encontrar alguém que se encaixasse neste perfil. Através de um amigo do curso de Jornalismo, descobrimos que um grupo de deficientes treina tênis nas quadras da UFSC.

Na tarde do dia seguinte, fomos às quadras ver o jogo e tentar conversar com um dos atletas para ver se alguém poderia ser nosso entrevistado. O tema é certamente delicado, e não poderíamos abordar qualquer pessoa de qualquer forma. Tivemos que ser cuidadosos e educados na procura. Foi assim que conhecemos Charles. Nos apresentamos, explicamos nossa proposta de entrevista e ele concordou em participar. Logo vimos que sua história poderia render uma boa entrevista e durante 15 minutos conversamos, gravamos a entrevista em arquivo de áudio e tiramos fotos. Charles foi muito aberto em falar sobre o tema e isso facilitou muito nosso trabalho. Estávamos no limite do prazo e foi muita sorte o encontrarmos e sairmos com a entrevista em mãos na mesma tarde. Diego ficou responsável por transcrever as falas que haviam sido gravadas e redigir o texto.

(Nayara Dalama)

A equipe do Quatro simplesmente ignorou sábado e domingo e continuou a fechar as páginas neste final de semana. Faltam poucas, duas ou três, conforme contabilizo por cima. Separada por quilômetros, a equipe trabalhou online, trocando emails e usando o disco rígido virtual criado para armazenar os arquivos da edição. Diagramadores desenhavam suas páginas e revisores “escaneavam” os textos, em busca de qualquer deslize maior…

Nesta semana, com chuva ou sem ela, fechamos a edição. Podem anotar.

Dizem que Luciano Machado é maluco, pois bem, é possível que seja. O jeito desengonçado, o lábio torto, o olhar intimidador, são atributos que contribuem para tal fama. Mas principalmente o que mais contribui é a linguagem que usa e o que expressa, nossa falta de discernimento e auto-crítica. A insanidade de Luciano é uma linguagem de defesa diante do mundo muito mais louco que ele. A sua loucura é a narração de uma sabedoria torta, de uma anomalia que o salva de realidade, esta sim, terrivelmente insana.“Todos já nascem fabricados por uma meritocrácia desmiolada”, disse ele, “estamos nos auto-excluindo”. É considerado louco por dizer o óbvio, que muitos dizem conhecer e mesmo assim evitam olhando para o lago. “Querida olhe aquele Ipode”. E disse mais, nas mais de três horas de gravação Luciano falou sobre tudo, e não poupou nem a si mesmo. Mas o que mais marca a conversa com ele, é o respeito à escuta do outro, do diferente, do estranho. Estranho que, entretanto, nos é familiar de alguma forma. Quem nunca se indignou com as mazelas e as desigualdades da vida? Quem nunca se sentiu impotente e fraco para mudar tais injustiças e sofrimentos. Talvez só um paspalho idiotizado e incivil.

Portanto, Luciano, e seu personagem Leicam, representam o nosso lado mais ativo e determinado. Afinal, quem se propõe nos dias de hoje sair à rua e defender o que pensa? Seu discurso pode chegar a formular lições de sabedoria, mas, antes de tudo, expõe sua percepção peculiar de si mesmo e do mundo em que nos encontramos: delirante e sábio, confuso e cristalino, atordoante e provocador de reflexão. Tentei no texto não me furtar à profecia oracular, mas gostaria de escrever um texto com a mise-en-scéne apontada por Luciano, pois acho que seria mais interessante e original do que ficou, com características extremadas e a essência minimizada.

(Alex Sobral)

 

O clássico provérbio popular que diz “quem vê cara, não vê coração” pode ser uma metáfora no que tange à leitura de uma matéria em uma mancha gráfica de jornal, revista ou de qualquer meio impresso. As palavras ali encadeadas em uma tessitura comprometida a informar e elucidar o leitor para o seu conhecimento às vezes pouco revelam nas entrelinhas os percalços dos bastidores, tanto do repórter como de outros envolvidos no processo editorial. Por trás de uma informação pode estar dias de pesquisa de campo, sola de sapato gasta em um vai-e-vem desenfreado atrás de fontes ou na redação de textos madrugada afora quando o deadline estiver ceifando horas como se fossem minutos.

Assim ocorreu com esta matéria de cultura relativa aos livros e filmes sobre viagens que fui encarregado de apurar, onde voltei algumas vezes a “estaca zero”. Começo de outubro eu reportava um processo político que envolvia os atuais limites do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, em outra editoria do Quatro, onde fui atrás da premissa de que haveria uma mobilidade da população local devido a uma polêmica lei que retirava a localidade de Vargem do Braço da Área de Preservação Integral do Parque. Entrevistando alguns envolvidos, a matéria tomou um rumo completamente diferente da proposta temática do jornal e a partir daí, previ o seu extermínio. Não teve outra. No dia seguinte, nova pauta: “literatura de viagem e Road Movies”.

Comparado ao “direitês” que ouvira de promotores e funcionários públicos na pauta anterior, essa era uma benção. Ainda mais neste período onde tive sérias brigas contra o relógio. Logo no dia recebi a indicação, por parte de um amigo, de que havia um viajante que trilhou aqui de Florianópolis até Atlanta nos EUA de fusca e publicou um livro sobre a ousadia. Era o personagem perfeito para o tema. Consegui marcar a entrevista com o Roberto Vaz, que por sorte, ia vir no dia de São Francisco do Sul, onde está morando atualmente, para Floripa. Em meio ao caos urbano do mercado público, Vaz me contou sobre os imprevistos que driblou durante suas longas aventuras e ainda me presenteou com um exemplar de seu livro “Conhecendo o Velho Mundo”, que fala da sua expedição de Kombi pela Europa durante a Copa de 1998. Ele mesmo se define como um Globetrotter, um viajante sem fronteiras.

Tomei a trágica decisão de fazer um perfil do Vaz, pois, no fim, ela acabou fugindo da proposta inicial da pauta que era para ser mais abrangente e o professor mandou refazê-la. Com isso, voltei a como eu estava antes: com “zero caracteres” às mãos. O prazo enforcado, e eu ali, sem nada concreto. Então, saí às pressas para procurar uma fonte que me explicasse sobre o gênero “literatura de viagem” em si e tive a sorte de encontrar, depois de algumas voltas pela UFSC, o contato do professor Stélio Furlan, que está elaborando uma tese de mestrado justamente sobre o assunto. Enquanto isso, recebi a resposta por e-mail do professor de cinema Jair Fonseca, que me indicou e explicou sobre os “Road Movies”. Ao fim, apesar dos imprevistos, consegui o que precisava de ambos e passei a madrugada em claro – enquanto o apagão da Itaipu tomara os noticiários – para entregar esta reportagem de cultura no dia seguinte. Sufoco que valeu a pena, com certeza.

(Thiago de Verney)

 

Quando o professor falou em sala que ainda não tínhamos nada de esportes no jornal e que a contra capa, que seria um ensaio fotográfico, estava aberta, lembrei na hora que iria viajar para Horizontina (RS) cobrir o campeonato Regional Sul de Baja SAE pela equipe da Universidade Federal de Santa Catarina. Era o que eu queria, esportes, fotografia e viagem.

Levamos 14 horas para ir de Florianópolis até a cidade gaúcha. Na viagem muita diversão e risada com a equipe UFSC Baja SAE, o que fez passar rápido o tempo dentro do ônibus. Horizontina é uma típica cidade do interior. Parece que todos se conhecem no município com 20 mil habitantes. O centro tem apenas algumas quadras e o local de encontro na noite é a pizzaria na frente da faculdade ou um dos dois postos de gasolina. Pessoas simpáticas e acolhedoras de forte sotaque gaúcho que me fez matar a saudade da minha terra. O nosso hotel era um ginásio de esportes, cerca de 200 pessoas dormindo em colchões, sacos de dormir e barracas, mas nada de diversão durante os dias de competição. Todos lá estavam focados. As equipes são extremamente dedicadas aos seus projetos e viram a noite definindo os últimos ajustes.

O primeiro dia de competição foi marcado por muita chuva e barro e nem tão grandes emoções já que as provas eram mais técnicas. Em compensação no domingo saiu sol, o que colaborou muito para as fotos e as duas baterias de enduro foram emocionantes. Os carrinhos de rally dividiam quase todas as curvas enquanto deslizavam no barro. Enquanto fotografava quase fui atropelado por um dos pilotos, que com a viseira cheia de barro, decidiu virar antes cortando o lado de dentro da curva onde eu estava. No final uma disputa acirrada entre a equipe UFSC e a da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Por 8 pontos de diferença a UFSC conquistou o tetra campeonato da competição.

Mas o que mais me marcou no fim de semana, foi confirmação que é de fato possível trabalhar com o jornalismo em situações que você realmente se identifica. Viajei durante quatro dias para fotografar e escrever sobre algo que gosto.

(Erich Casagrande)

Flagrantes da manhã de hoje, quando a equipe do Quatro se debruçou pra valer sobre as páginas da edição…

decimaMarina Ferraz e Diego Cardoso auxiliam a insone Nayara Dalama (de preto) a diagramar uma página.

portrasNinguém quis sorrir pro flash. Havia muita coisa a fazer…

Ao topar fazer a matéria sobre o transito de pacientes do interior do estado para a capital não esperava achar uma situação tão desorganizada e que causasse tanto sofrimento. A busca pelas fontes foi a primeira dificuldade e, saindo para fazer a matéria no escuro, o primeiro lugar que procurei foi o Serviço Social do Hospital Universitário. Lá, as assistentes sociais me presentearam com documentos e orientações que foram o fio condutor da matéria. Levantaram também a questão de que a maioria dos casos que são apresentados ao HU deveriam ficar nas regiões de origem, já que o serviço necessário pode ser executado nas cidades pólo.

O segundo desafio foi a busca pelo personagem. É incrível como as pessoas temem represálias das administrações municipais, os cidadãos não entendem que o Tratamento Fora do Domicílio – TFD é um direito e não um favor político. Finalmente, depois de muita conversa e de saber que não era para a televisão, alguém aceita dar a entrevista. Dona Marialva, moradora de Videira, contou sua história, as muitas portas que já tinha batido e a falta da solução para seu problema de dores nas costas. Ao terminar o interrogatório peço a ela uma foto para ilustrar a matéria e a videirense nega veementemente “Vai que alguém vê isso lá no meu município!” teme como se devesse algum favor a alguém. Talvez o medo de Dona Marialva deva-se ao fato de que ela veio sem marcar consulta previamente aqui na capital, o que não deveria mais acontecer segundo as assistentes sociais.

As demais fontes que me foram indicadas mostraram melhor como funciona a lógica da ”ambulâncioterapia”. Concluí que é realmente muito difícil levar serviços caros e de alta complexidade a todas as regiões do estado. Porém me foi alertado que grande parte dos pacientes que vem do interior buscam o básico e é nesse ponto em que o poder público falha com gravidade.

(Diego Vieira)

Soube desta pauta por uma amiga, que comentou que alguns amigos seus já tinham viajado pela Força Aérea Brasileira sem pagar nada. Logo me imaginei voando em um avião militar, em algum canto distante do país. Mas nunca fui me informar como exatamente funcionava o Correio Aéreo Nacional. Foi então que sugeri a matéria na reunião de pauta do Quatro.

Como em toda matéria que escrevo e gosto, o mais interessante sempre foi o fato de aprender sobre aquilo que está reportando. Durante a apuração você descobre, vive, conhece. Com certeza este é o momento mais apaixonante do jornalismo.

A apuração começou com contatos por telefone com a Base Aérea de Florianópolis (BAFL). Nesse momento ficou clara a burocracia e formalidade militar no tratamento de questões internas. Horários precisos, nomes exatos. Fui até a BAFL duas vezes. A primeira foi no dia 26 de outubro, mas eles haviam transferido o dia do funcionário público de 28 para 26, ironicamente, sem aviso prévio. Perdi a viagem. No dia seguinte passei uma tarde inteira conversando e pesquisando dentro da BAFL, não podia transitar sozinho pela base, alguém sempre me acompanhava. Foi no escritório da comunicação social que tive acesso ao documento NSCA 4-1, que cito na matéria, e que está disponível para download apenas pelos computadores da FAB. Ficamos cerca de duas horas verificando, com os superiores da FAB, se as informações contidas nele poderiam ser passadas para imprensa. No fim não houve problemas e o documento foi liberado. De fato não há informações confidenciais no documento, mas tudo dentro das Forças Armadas tem que ser exato e confirmado.

Depois conheci Posto CAN, que fica ao lado da pista do angar principal. Enquanto conversava com o Sargento Ferreira, dois aviões de patrulha da base decolaram, e a vontade de voar só aumentava. Mas não foi desta vez que viajei em um avião da Força Aérea Brasileira, vou esperar por um C-130 Hércules, que deve ser mais emocionante.

E para quem pretende viajar de CAN em breve, boa viagem!

(Erich Casagrande)

Enquanto metade do Brasil ficava às escuras por causa do apagão de ontem à noite, boa parte da redação do Quatro continuava trabalhando pra fechar a edição do semestre no prazo acertado. Diagramadores desenhavam páginas e editores passavam a tesoura em textos mais longos que o permitido. Havia ainda quem pedisse pra ajustar uma informação ou outra numa reportagem, e quem ainda arrancasse os cabelos atrás de uma boa foto.

O “plantão” do Quatro avançou pela madrugada. A lista eletrônica do grupo convulsionou durante o dia de ontem: mais de 70 mensagens foram disparadas, cobrando material, tirando dúvidas e contagiando o resto da equipe no processo de fechamento.

Hoje, agora pela manhã, a correria continua. Ainda bem!

Quando comecei a apuração, não imaginava que a minha pauta fosse mudar completamente depois de uma entrevista. A idéia inicial era fazer uma reportagem sobre como os problemas no trânsito em Florianópolis afetam a rotina da população. Entretanto, a conversa que tive com o engenheiro do Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (IPUF) me alertou para a essência de toda a confusão: falta de planejamento. Enquanto ele ia falando, eu via todas as minhas certezas sobre o assunto desabarem.

A gente acredita que a função da Prefeitura é facilitar a vida dos motoristas de carro. Mas a ilha não agüenta mais. Foi nessa primeira entrevista que atentei para o fato de que 70% da parte insular da cidade é formada por áreas de preservação ambiental. Muitas obras importantes, como a Via Expressa Sul, só puderam ser feitas por meio de aterros. Ou seja, priorizar os carros em um lugar onde não dá mais para expandir o sistema viário é burrice.

A solução apontada pelos especialistas é o transporte público de qualidade, aliado a um bom planejamento que integre todas as modalidades de transporte. Não vou dizer que a Prefeitura não tem sua parcela de culpa, mas os manezinhos, paulistas e gaúchos que moram em Floripa parecem não estar muito interessados em trocar o conforto de um automóvel pelo sacolejar de um latão.

Além das entrevistas, passei uma tarde na biblioteca do IPUF consultando documentos empoeirados, e muitas noites em frente ao computador lendo uma tese de doutorado e artigos sobre planejamento urbano. Todo o cuidado é pouco, escrever uma bobagem sobre um tema polêmico pode acabar com a credibilidade da matéria (e da repórter). No fim, aprendi um pouco mais sobre arquitetura e urbanismo, que se revelou um assunto muito interessante e pouco abordado na mídia brasileira. Uma boa ideia para pautas futuras.

E agora, o momento Maguila: não poderia deixar de agradecer a ajuda de algumas pessoas nessa reportagem que foi tão trabalhosa. Aline e Ênio, os jornalistas que me orientam no estágio, deram dicas preciosas de apuração e construção do texto. Os funcionários da biblioteca do IPUF também foram muito prestativos. E claro, também quero agradecer aos meus colegas de turma e ao professor-editor que deu toques importantes. Ah, e o Dieguinho, que me emprestou uma caneta na hora do apuro!

(Berenice dos Santos)

No calor que começava a fazer em outubro, foi muita sorte que minha estréia em uma reportagem sobre uma banda tenha coincidido com a inauguração do ar condicionado do estúdio onde os cinco integrantes do grupo Cassim e Barbaria ensaiam, no Rio Tavares. A entrevista, intercalada com ensaios de meia hora, foi bem descontraída e mais fácil do que parecia. Difícil mesmo foi, dois dias antes, telefonar para marcar o encontro e dizer: “Alô, Xuxu?”. Quase agradeci ter entrado em contato com ele ao saber do “nome” dos substitutos para baixista e baterista: “Amexa” e, claro, “Cachorro”.

Depois de conversar durante meia hora, já estava sabendo vários “causos” da viagem rumo à conquista da América. Por dentro, comemorava o fato de que eles estavam se mostrando entrevistados ideais: relembravam tudo o que vinha à cabeça, riam, conversavam entre si e, principalmente, falavam o que eu precisava ouvir para compor uma matéria que seria, ao mesmo tempo, diário de viagem e perfil da banda. Quando me dei conta de que estava passando de repórter-curiosa-fazendo-mil-perguntas a repórter-curiosa-atrapalhando-o-andamento-das-coisas, sugeri que ensaiassem e, depois, poderíamos retomar.

Suspeitei que minha audição estava em jogo ao vê-los colocando protetores de ouvido enquanto ajeitavam os instrumentos, mas assim que meu tímpano parou de reclamar dos primeiros acordes e comecei a ouvir a música, fiquei mais tranqüila. Confesso, me afeiçoei pelo som deles. Acabado o ensaio, que teve direito a vocalista manco, coreografia dos bateristas – sim, porque a banda tem dois – e inclusive participação especial e lúdica da repórter na guitarra (não, eu nunca havia tocado uma guitarra na vida), voltamos a conversar e de repente tinha em mãos material suficiente para muito mais do que os 8 mil caracteres programados. Escrever, depois, foi muito mais decepcionante que a etapa da apuração. No meu caso, ter um bom material implica em não saber por onde começar e, na hora de passar para o papel, muita coisa acabou ficando de fora.

Não contei, por exemplo, o porquê do nome Cassim e Barbaria, mas isso foi mais por uma questão de falta de clareza, mesmo. Quando perguntei pela primeira vez, desconversaram. Na segunda, disseram que, inicialmente, Cassim era uma referência ao vocalista e guitarrista Cassiano, mas que hoje isso não tem mais sentido. Sobre “Barbaria”, apenas me falaram que “tem a ver com história de pirata” e, num clima de piada interna, riram. Risadas, aliás, são coisas que os cinco apreciam e, também por isso, não posso negar que me diverti.

(Rosielle Machado)

No desenho animado “Capitão Planeta”, sucesso nos anos 90, um homem dotado de super poderes, com pele verde e cabelo mais verde ainda, lidera um grupo de jovens ambientalistas na luta contra os vilões da poluição. Esses vilões fazem de tudo um pouco, desmatam, aprisionam animais e jogam lixo e esgoto no fundo do mar. Poderíamos estar vivendo esse cenário. Uma empresa grande, no caso a Casan e seus trabalhadores, nós – a população, planeja despejar no fundo do mar todo o esgoto que produz. Esse esgoto irá poluir tudo em menos de duas décadas, reduzindo a vida marinha quase que completamente, e criando zonas mortas. O turismo acabaria, os pescadores migrariam para São Paulo e os bebês nasceriam com defeito de formação causada pela poluição, como já ocorreu na Austrália.

Mas não é assim que está ocorrendo. Primeiro que nada é feito em surdina. A Lei de Crimes Ambientais ou Lei da NaturezaLei nº 9.605/98 determina que qualquer ação sobre o meio físico que venha a afetar a vidas de todos, deve ser discutida e conhecida por todos. Para isso temos órgãos presentes com técnicos vigilantes. Sem falar no terceiro setor, presente nas discussões e liderando os pedidos de esclarecimentos. O Ministério Público Federal quando determinou a paralisação da estação de tratamento no Campeche estava certo de que mais vale um atraso na construção, do que a contaminação de um habitat rico, como é a Reserva Extrativista Marinha do Pirajubaé, o que seria uma tragédia.

Devo muito ao Ministério Público, por meio da Daniela Mara Hoffmann Zimermann, analista pericial em engenharia sanitária da Procuradoria da República em Santa Catarina. Pois a Casan dificultou ao máximo a comunicação com a única pessoa que tinha os dados do projeto de construção do emissário, o Gerente de Construções da Casan, Fábio Krieger. Chegaram até me deixar uma tarde inteira “plantado”, no melhor jargam ambientalista, na sede de operações da empresa, esperando esse gerente. A assessoria não dizia nada, as secretárias eram muito bonitas mudas, e no final cheguei até a ouvir que a maioria das informações eram sigilosas e, portanto, não poderiam ser entregues a mim que tenho o intuito de informar.

Graças ao Ministério Público, tive mais informações sobre o projeto, pois foi enviado em julho passado um documento de atualização do projeto à procuradora Analúcia Hartmann, que acompanha o caso. Se a construção dos emissários submarinos são tão polêmicos no mundo todo, certamente não deixariam de ser em Florianópolis. Por mais que laudos e estudos comprovem que o emissário, quando bem feito, é a melhor solução para o lixo, senti uma pontada de dúvida em todos que entrevistei sobre o respeito. Inclusive no pessoal da Casan, que seguem a linha do seu Presidente que afirmou que “ou se constrói os emissários ou se afunda na merda”. Para que não haja dúvida sobre a qualidade que oferecemos aos nossos turistas e que bebemos e nos banhamos, precisamos de pessoas e órgãos vigilantes, como no desejo animado, que todo episódio terminava com um sonoro grito, “o poder é de vocês”.

(Alex Sobral)

Quando comecei a matéria sobre monitoramento, fiz uma varredura nos projetos de lei para a internet do Brasil. É assustador o quanto blogueiros e sites de grandes jornais publicam informações distintas (e algumas vezes erradas) sobre documentos disponíveis nos sites da Câmara e do Senado. Durante a pesquisa, cheguei à legislação catarinense sobre as lan houses (o que me levou a conversar com o delegado Hendges), à algumas referências sobre as delegacias de cibercrimes e ao órgão do Distrito Federal responsável pelas “ocorrências da internet”, tratadas ainda como novidade.

Ter muitas informações pode ajudar a encaminhar uma matéria, mas pode complicar na hora da redação: ao redigir, acabei com um texto de 13 mil caracteres. Reduz um pouco, reangula algumas partes, reescreve e voilà, 8 mil toques. Termos técnicos também complicam um pouco: P2P, IP, e outras tantas siglas complicadas do mundo dos computadores. Alguns deles são desnecessários, outros já existem em português. Apurar bem é importante, mas escovar o texto é fundamental.

O monitoramento da internet é uma questão política, jurídica e ética. Abordar esses temas sem se perder nas informações não foi fácil. No final das contas, concluí que é impossível restringir uma questão dessas somente à tecnologia. Monitorar é preciso? Podemos opinar, mas é a Lei que vai definir. Só espero que defina para as circunstâncias certas.

(Diego Cardoso)

Apenas quatro das 24 páginas do jornal estão abertas ainda… os textos faltantes estão chegando e os relatos de bastidores já começam a rechear este blog. A equipe de diagramação conjuga o mantra “Vai caber! Vai caber!” e encaixa as matérias nas páginas. Os editores arrancam os cabelos para pensar títulos precisos, linhas finas bem explicativas, legendas inteligentes. Tratadores de imagem gastam as retinas diante das telas, tornam meros registros fotográficos em fotojornalismo de qualidade…

Ninguém está parado…

roberta_joao_nayara(Em primeiro plano, Roberta Perini anota as alterações que seu texto deve sofrer. Atrás, João Schmitz confere material que Nayara Dalama recebeu)

A pauta saiu de uma experiência minha no trânsito. Todo mundo que dirige em Florianópolis e passa pelo viaduto do CIC, percebe um grave erro estrutural: ao se fazer a curva que de descida do elevado, o carro é “jogado” pra fora dela, contra a mureta (devido a forças que só os físicos e engenheiros podem explicar). Obviamente é um erro de engenharia, pois oferece riscos ao motorista desatento.

Outro equívoco é o elevado do Itacorubi, em frente ao cemitério. Ele é formado por duas pistas que se afunilam antes de retornar ao solo, ainda no viaduto. Com esses dois exemplos, parti do pressuposto que erros de engenharia civil comprometem bom fluxo do trânsito da cidade – sob essa premissa elaborei a pauta.

Uma das melhores coisas que podem acontecer à sua pauta é a angulação dela ser desmentida. Você parte de uma base empírica, o senso comum, as lendas urbanas; e ao procurar o especialista para explicar o fato, ele derruba o “mito”. Foi isso o que aconteceu comigo ao falar com a professora Lenise Goldner, que ministra uma disciplina sobre engenharia de trânsito no curso de Engenharia Civil da UFSC. Ela foi taxativa: “o problema do trânsito não é da infraestrutura, e sim do planejamento do sistema”.

A pauta não caiu, apenas a sua angulação mudou. Partiu de “problemas de engenharia prejudicam mobilidade urbana” para “NÃO são os problemas de engenharia que prejudicam a mobilidade urbana”. Concluí que quando isso ocorre, o gancho da matéria se fortalece: desmentir os mitos é de muito mais interesse do que explicá-los.

(Tomás M. Petersen)

 

Recentemente entrevistei, para um trabalho da disciplina Edição, o então editor-chefe do Jornal do Brasil, Rodrigo Almeida. No meio de um papo sobre público-alvo, ele me soltou a seguinte ideia: “é difícil saber o que o leitor quer, mas eu ainda acho – e aposto – que ele quer uma boa história”. Depois que saí da sala dele, fiquei refletindo sobre isso e lembrando das boas histórias que já li no jornalismo. Em jornais foram poucas, costumo encontrar bons personagens em revistas, principalmente as mensais. Então, passei a pensar como repórter e percebi que é realmente difícil encontrar um alguém que conduza nossas matérias e, ainda mais difícil, convencer as pessoas a falar. Nos meus dois anos de jornalismo, essa foi a minha primeira experiência de reportagem com um bom personagem.

Quando as pautas foram adotadas e distribuídas entre os repórteres do Quatro, confesso que nenhuma me agradou a ponto de desejar apurá-la, então, quando chegou minha vez de escolher, restaram poucas. Resolvi, não sei por quê, optar pela matéria sobre a rota do lixo reciclável em Florianópolis. Fiquei um bom tempo sem vontade de fazê-la, mas o dead-line foi chegando e a pressão me fez pegar o telefone e agendar as primeiras entrevistas. A primeira delas era com o presidente da Associação dos Catadores de Material Reciclável, Wolmir Santos, no centro de triagem do Itacorubi, onde trabalham 80 pessoas na separação da coleta seletiva da cidade. Foi esperando meu entrevistado que conheci o adolescente que conduziria minha reportagem, de apenas 16 anos. Uma pessoa muito madura para sua idade, que trabalha desde os 12 anos e que já comprou até sua casa própria com o dinheiro que ganha separando lixo. Com ele, pude perceber que as melhores histórias saem de quem quer ser a história. Minha fonte tinha orgulho do que já viveu, do que é e do que já tem com sua pouca idade, então parecia querer que todos soubessem que ele deixou as drogas de lado e foi à luta, trabalhar.

Mas, o objetivo principal da minha reportagem era esclarecer à população por onde passa o lixo que sai da sua casa, quem ele ajuda e no que ele se transforma. Fui atrás de números e dados que fizessem o leitor ter um parâmetro sobre a importância ambiental e social de uma atitude simples, que é separar o lixo em sua residência. Abordei a questão da coleta seletiva, feita pela Companhia de Melhoramentos da Capital (COMCAP); a triagem do material coletado, que gera renda para 80 pessoas; e a ida do material para a indústria, que passa por uma empresa intermediária antes de se transformar em produto para consumo.

Depois de tudo apurado, confesso que a maior dificuldade que encontrei na rota da minha matéria foi a redação. Acostumado a escrever notícias durante todo o primeiro semestre deste ano, fugir do lead, de repente, foi penoso.

O mais legal de um jornal laboratório é você ver as coisas acontecendo com a ajuda de todos. O quanto o processo da elaboração de um jornal pode envolver as pessoas. A experiência deste semestre deixa os apaixonados por jornalismo ainda mais entusiasmados com a profissão, e com desejo de encarar, logo, o que vem pela frente.

(João Schmitz)

Centro de Florianópolis em uma tarde quente. Muitas pessoas apressadas e muitos camelôs vendendo de tudo pelas ruas. Não havia lugar melhor para apurar minha matéria sobre trabalho informal. Câmera na bolsa, bloco de papel e caneta na mão e escolhi a primeira pessoa a ser entrevistada. Me apresentei rapidamente e pedi para conversar com ela. Assustada com meu interesse ou pelo bloco de papel que eu carregava, a velhinha de uns 70 anos que vendia meias ficou desconfiada. Disse que já havia conversado com outra pessoa ontem e que eu não precisava entrevista-la. Tentei em vão explicar que estou fazendo meu trabalho sozinha para o jornal da universidade, mas ela mal prestava atenção ao que eu dizia. Ficava olhando para os lados e explicou o motivo de não dar entrevista: “Não posso conversar porque tenho que prestar atenção no movimento na rua. Se o rapa vier vai levar todas as minhas meias”. Explicou a mulher que não quis se identificar. Sem mais argumentos desisti de entrevistá-la.

Parei perto de outra vendedora de meias e comecei uma conversa informal. Márcia Jaquelina se mostrou muito mais receptiva e me contou detalhes de sua vida. Mas, assim como a primeira senhora que procurei, mal olhava para mim enquanto eu fazia minhas perguntas com medo de ter seus produtos levados pelo rapa. Me surpreendi quando, no final da entrevista, ela aceitou ser fotografada.

Continuei andando pelas ruas e entrevistei um casal de vendedores de passe. O casal me falou da recém-criada Associação de Vendedores Ambulantes de Florianópolis, que só mais tarde descobri se tratar na verdade da Associação de Trabalhadores Autônomos da cidade. Fui procurar o presidente da associação, Vanderley Elias Duarte que, segundo as indicações, costuma ficar há 30 metros dali, embaixo de uma grande árvore.

No local indicado, só havia mulheres. Quando perguntei se alguém sabia onde estava Vanderley, sua mulher se identificou e, pelo celular, tentou localizá-lo. Fiquei esperando durante uma hora até que ele chegou. Vanderley é um moreno alto e forte que não aparenta os quarenta anos que tem. Chegou com um livro da constituição federal em baixo do braço, foi simpático e ficou extremamente feliz com meu interesse pelo seu trabalho. Antes da conversa começar ele disse que ia chamar “a porta voz da Associação porque ela iria enriquecer a nossa conversa”. Disse também que eu podia perguntar o que eu quisesse durante o tempo que fosse necessário. Mesmo antes da “porta voz” Marisol Paz chegar, comecei a entrevista, afinal de contas, ele era meu personagem principal. Marisol demorou muito e minha entrevista já havia terminado quando ela chegou. Comecei a refazer algumas perguntas porque me senti na obrigação de valorizar sua boa vontade de parar o que estava fazendo para me atender. Outras questões surgirão e ela realmente enriqueceu a conversa.

(Roberta Perini)

Para escrever sobre o caminho do sangue foi imprescindível fazer uma visita ao Hemosc de Florianópolis. A reportagem era técnica e precisava de dados precisos. A primeira dificuldade foi explicar à direção do hemocentro o objetivo da matéria e conseguir autorização para ir a campo. Passei três dias tentando entrar em contato com a direção, enviando emails, deixando recados e insistindo muito para alguém me dar alguma posição. Uma semana depois, recebi um telefonema de um funcionário que disse que a chefe do setor de captação responderia minhas dúvidas e me explicaria todos os procedimentos da doação. O telefonema chegou ao mesmo momento em que um email da direção me avisou que não havia nenhum funcionário disponível para me auxiliar na execução da matéria – um pequeno problema de comunicação interna.

Resolvi ignorar o alerta virtual e marquei um horário para a entrevista no Hemosc. Foi em uma terça-feira à tarde. Como a própria entrevistada definiu, “bombardeei-a” de perguntas. Algumas de fácil resposta, outras nem tanto. Percebi isso quando ela começou a ligar para vários ramais querendo informações como número de doações mensais, nomes de componentes dos testes de sorologia, temperatura de armazenamento de cada componente, etc. Eu sabia que ela possivelmente não teria resposta para tudo, mas eu precisava tê-las respondidas e não encerrei meu questionário. Certo momento, quando perguntava minuciosamente sobre os procedimentos de separação do sangue, ela se levantou, me deu um jaleco de seu armário e disse: “Venha. Melhor você ver tudo de perto”. Era tudo o que eu queria ouvir. Coloquei a roupa branca e a segui pelos corredores do prédio. Esta é uma de minhas maiores satisfações como estudante de jornalismo: conhecer pessoas e lugares aos quais não teria acesso se não fosse por ocasião de uma reportagem.

Entrei na sala de separação dos componentes, vi o processo acontecer e tirei algumas dúvidas com os funcionários. Depois, fui à sala de armazenamento ver o estoque de sangue e à sala de testes para conhecer as máquinas que fazem os exames automaticamente. Coletei todas as informações necessárias para traçar o caminho do sangue dentro do hemocentro. Após voltarmos para a sala da entrevistada, fiz minhas perguntas finais e fui embora com a impressão de ter deixado minha entrevistada com enxaqueca.

Passei pela sala de espera e entrevistei uma doadora para usar de personagem na abertura da minha matéria. No momento me ocorreu de fazer um texto correlato sobre o procedimento da doação, então resolvi também doar sangue. Fiz meu cadastro e segui todo o caminho descritivo na reportagem: respondi o questionário de triagem, tive o dedo furado e fui para a entrevista íntima. Rapidamente copiei algumas das perguntas do questionário enquanto tirava dúvida com a enfermeira sobre a necessidade de coletar pouco mais do que uma gota de sangue pelo furo no dedo. Não passei pela entrevista: fui impedida de doar sangue porque havia tomado remédio para sinusite dois dias antes e o medicamento poderia alterar os resultados do teste de sorologia. Munida de todas as informações que considerava essenciais para redigir a matéria, fui pra casa escrever.

Durante a elaboração da reportagem tive duas dúvidas que enviei para minha entrevistada por email. Para obter informações para o infográfico, entrei novamente em contato com ela por telefone e recebi os dados por email poucos dias depois. A maior dificuldade foi tentar escrever o texto sem deixá-lo entediante, já que trata de informações técnicas e precisas. A idéia de colocar uma personagem foi justamente para tentar humanizar a matéria, explicar para as pessoas sobre a doação de sangue e levá-las a serem doadoras também.

(Nayara Dalama)

A apuração da matéria começou por acaso enquanto voltava de um petroleiro, em São Francisco do sul. Notei que o piloto da lancha, Marcos Antônio, que nos levava de volta ao porto utilizava um aparelho de GPS apesar da ótima visibilidade. Marcos gostou de conversar sobre o seu trabalho e foi muito atencioso. No meio da conversa fui convidada a pilotar a lancha para ver como era simples. Pude observar que é impossível se perder quando se tem uma rota previamente demarcada no aparelho, mas manter a lancha na trilha exata requer experiência. Logo cansei e preferi sentar no banco do carona.

Já em terra firme tive uma ótima ideia que não pode ser executada. Queria acompanhar um turista que não conhecesse nada da cidade durante um percurso em um carro com GPS para ver como ele iria se sair. A ideia era depois percorrer o mesmo caminho com um taxista experiente e depois sozinha de ônibus para comparar a duração dos trajetos. A locadora de carro que procurei criou mil obstáculos para meu projeto e fui obrigada a deixá-lo de lado.

A apuração continuou com uma pesquisa feita pela Associação Brasileira de Defesa do Consumidor que comparava diversos aparelhos de GPS. Além disso, entrevistei taxistas, vendedores, topógrafos, motoristas que usam GPSs e pessoas que viajaram para o exterior.

Confesso que não gostei de apurar e escrever sobre GPSs. Normalmente fujo da editoria de tecnologia. Mas, como preciso escrever de tudo, tentei fazer a matéria da melhor maneira possível.

(Roberta Perini)

A parte legal do jornalismo é a apuração. Utilizando o já gasto clichê de “sujar os sapatos”, a parte que eu mais gosto em todo o processo de escrever a reportagem é gastar a sola. Mas existem momentos em que essa “aventura” parece que não existe, como no caso da matéria das Rodovias Verdes.

A pauta já previa que o projeto estaria em exibição na Sepex (Semana de Ensino Pesquisa e Extensão) da UFSC. Uma boa oportunidade de colher as informações sem maiores esforços físicos. Lá, o professor Trichês e seus bolsistas estavam em apuros, recebendo visitantes no estande: marcamos pra semana seguinte, às 14h no laboratório deles.

Cheguei lá e o professor ficou surpreendido: “ele veio mesmo! Não dá pra voltar no final da tarde, às 17h?”. Deu tudo certo nessa parte.

Depois precisei de outras fontes. Nesse ponto, a maior dificuldade foi fazer o primeiro contato. Aproveito para dar uma boa notícia para alguns contemporâneos do século XI: o uso do email já é uma realidade e está consolidado como hábito. Não consigo entender como alguém demora mais de 24 horas para responder uma mensagem – isso quando responde. Ou então só pode ser perseguição do servidor do Gmail que boicota alguns dos meus emails.

Eu queria uma fonte do setor privado, que pudesse falar sobre o uso de algumas das técnicas mencionadas na reportagem. Googleei uns nomes de empresa que eu vi fazendo reparos na SC-401, e procurei por mais alguns. Na primeira tentativa, o site fornecia 2 telefones, de Criciúma (não precisaria pagar interurbano). Como nenhum dos dois existiam, mandei email. Liguei pra outra, a moça me disse que o engenheiro responsável estava viajando, mas que o cimenteiro poderia falar. Só que o cidadão também estava ocupado e ela me passou o email dele. Eu perguntei: “mas ele costuma usar o email?”. “Sim, claro”, ela respondeu pra mim. Estou aguardando até hoje. Na terceira tentativa, eu liguei no telefone que constava no site. Acho que a atendente sequer sabia o nome da empresa em que trabalhava.

(Tomás M. Petersen)

A idéia de uma matéria sobre a formulação das leis partiu de um curso que realizei no primeiro semestre deste ano na Câmara dos Deputados, em Brasília.. O curso, que é ministrado mensalmente, é voltado para o público universitário, e mesmo com a maioria de meus colegas estudando Direito, pude notar a total desinformação a cerca do tramite legislativo. Lá, percebi a necessidade de, como estudante de jornalismo, tentar explicar um dos processos mais importantes da democracia, o de como nascem às leis.

A principal dificuldade foi tentar incluir um personagem. Queria fugir da idéia de um especialista em Direito como fonte, explicando tudo. Logo tive a idéia de tentar uma fonte que não sabia nada sobre o processo, procurei um auxiliar de serviços gerais da UFSC e perguntei a ele o que sabia do tramite de leis no país. Com a resposta comecei a escrever a matéria, mas logo percebi que ela podia ser interpretada como preconceituosa e elitista, taxando o auxiliar de desinformado e até ignorante.

Sem personagem, fiquei completamente sem idéias para conduzir a matéria e o deadline se aproximava cada vez mais. Tentei até pegar como personagem um projeto de lei mesmo e narrar o “sofrido caminho” dele pelas casas legislativas, mas definitivamente não ficou bom. Comecei a pesquisar matérias que tratavam de assuntos parecidos e notei que a maioria delas não tinha um personagem constituído e decidi que assim trataria o assunto, sem personagens, mas também sem as complicações do “jurisdiquês” dos textos que estudei e que encontrei pela internet.

(Diego Vieira)

joao_e_nayaraJoão Schmitz e Nayara Dalama discutem uma das páginas do Quatro.

suelen_diagramaSuélen Vale se preocupa com as linhas do novo projeto gráfico.

Durante a votação da palavra-tema para a edição do Quatro que iríamos fazer, estive a todo o momento favorável a “trânsito”. Eu via essa palavra como a possibilidade de surpreendermos, ao fazer um jornal diferente do que as pessoas imaginam. A partir disso, comecei a pensar minha pauta. Eram quase 23h do dia anterior a entrega e eu ainda estava sem ideias para a matéria. Cheguei em casa, e resolvi soltar a pergunta no ar para minha irmã e uma amiga. Sem pestanejar, elas me falaram sobre experiências fora do corpo. Gostei, e muito. Afinal, já que eu tinha a possibilidade da escolha, juntei o desejo de leitores com o meu. Na redação, a pauta foi aceita, e com uma semana para escrever o texto, comecei a pesquisar fontes.

Para minha surpresa, encontrei em uma reportagem o nome Instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia (IIPC). Na hora, copiei e colei no Google, e surpresa de novo, vi no site oficial que havia um centro educacional do IIPC em Florianópolis. Liguei para lá e a secretária ficou com meu número do celular, disse que ia pedir a um dos professores para me retornar. Enquanto esperava, fui com a repórter Claudia Xavier ao projeto Amanhecer, da UFSC, tentar achar algum personagem. A matéria da Claudia era sobre regressão, e estava prevista para ser publicada na mesma página que a minha, então mantivemos contato durante toda produção.

Sempre atenciosos, conseguimos entrevista assim que chegamos ao projeto, mesmo sem marcar. Gloria Mello explicou a Claudia como acontece o processo de regressão, mas me avisou que não seria a pessoa adequada para falar sobre experiências fora do corpo. Mesmo assim, fiquei escutando. A conversa fluía bem e Gloria, aos poucos, também entrou no campo das viagens astrais. Melhor do que isso, relatou sua própria experiência, e acrescentou que só quem conhece o assunto sabe diferenciar uma viagem astral de um sonho.

Ela estava em casa quando sentiu que sairia do corpo, e se deixou levar. Por mais ou menos quinze minutos, passeou pelo Centro de Florianópolis sem o corpo físico. Quando olhou para o céu, viu uma luz branca e foi até lá, onde encontrou seu mentor espiritual. Gloria conta que ele disse “você está atrasada”, e ao responder que passeou antes do encontro, ele disparou que ela estava atrasada 400 anos. Então, o mentor espiritual leu a Gloria uma poesia em que, segundo ela, estava escrito sobre a importância de praticar sentimentos bons e se desapegar dos bens materiais.

Com a história de Gloria, consegui o personagem da minha matéria. Jornalismo é assim, quando o repórter menos espera que vai conseguir algo, encontra o que dá base àquilo que quer contar, ou seja, alguém que viveu o fato. Três dias depois, o assessor do IIPC me retornou a ligação, e perguntou se a entrevista poderia ser por telefone. Sem muita escolha, já que o prazo estava acabando, aceitei. Conversei com o professor Kleverson Luiz Rachadel, até que consegui entender um pouco como a projeciologia explica as experiências fora corpo. Ainda pesquisei os estudos já feitos, e como a medicina debate as viagens astrais.

De acordo com o espelho da redação, minha reportagem teria três mil caracteres. A pesquisa que fiz rendeu tranquilamente isso, mas sei que o assunto poderia estar em página inteira, se conseguisse mais personagens. Também usei o relato do velejador Lars Grael, que contou à Revista Super Interessante ter experimentado a sensação de sair do corpo quando sofreu o acidente em que perdeu uma das pernas. Depois de tentar entender o assunto de todas as formas, escrevi. Na redação, quis mostrar que é interessante conhecer sobre viagens astrais e, principalmente, enfatizar que existe ciência que já comprova, mas para outras, o tema é misterioso.

(Daniela Bidone)

Fico imensamente feliz de ter escolhido um assunto tão delicado e complexo como transplantes para a reportagem de saúde do Quatro. Consegui informações valiosas sobre o programa Fila Zero de Córnea e acredito que servirão como um alerta às pessoas que precisam de um transplante e nem imaginam a complexidade de todo o processo para que ele aconteça.

Minha principal dificuldade foi conseguir uma entrevista com o médico responsável pela Central de Captação e Distribuição de Órgãos de Santa Catarina (SC Transplantes), Dr. Joel de Andrade. Já vinha tentado entrar em contato com ele desde o começo do ano, pois, já tinha tentado fazer uma reportagem sobre isso para outra disciplina. Depois de muitas tentativas e ligações, consegui o contato do médico e comecei a tentar marcar uma entrevista. Que canseira! Quando finalmente consegui a entrevista, mais um problema surgiu: precisava de mais fontes. Isso, sem dúvida, me tirou o sono, porém, não tive acesso aos nomes das pessoas que esperam por um transplantes de córnea, até porque são mantidos em sigilo, e na Secretaria da Saúde me informaram que só quem falaria sobre o assunto seria o médico.

Infelizmente não pude fazer nada a esse respeito, mas fico tranqüila quanto à qualidade das informações que coloquei no texto, pois, em nenhum meio de comunicação do estado encontrei reportagem mais completa sobre o assunto. Entrevista feita e estatísticas em mãos, pude organizar minha reportagem, sabendo que não seria direcionada ao drama das pessoas que esperam por um transplante (por não ter conseguido esses contatos) e sim a explicar o que é o programa Fila Zero de Córnea e dar um panorama geral dos transplantes no estado e no país, através das pesquisas da ABTO. Espero que as pessoas leiam e entendam como são feitos os transplantes e conheçam o programa Fila Zero de Córnea, que pode mudar a vida de muita gente.

(Suélen Ramos Vieira Vale)

Quando escolhi fazer uma reportagem sobre home office, não imaginei que seria tão difícil encontrar fontes para o assunto. As pessoas que entrevistei são resultado de muita busca no querido Google. Caía em listas de arquitetos, engenheiros e tantos outros profissionais de Florianópolis e ia ligando para cada um deles para perguntar se trabalhavam em casa. Já havia lido algumas matérias sobre o assunto e visto na televisão também, mas em Florianópolis foi outra história. Buscando na internet : “home office”, “trabalho em casa”, “escritório doméstico” e outras mais, consegui até o contato do Handerson Frota, de Fortaleza, que trabalha em casa, fazendo programas de computador.

Claro que, nessas buscas incessantes também apareceram algumas bobagens, tipo: “Saiba como montar um confortável escritório doméstico…cadeira giratória, por apenas R$299!” Ou ainda: “Ganhe dinheiro sem sair de casa. Embolse até R$ 3 mil mandando e-mails” (Vendo isto, até pensei em ingressar nessa carreira tão promissora). A advogada Rosa Ribas também foi uma surpresa.

Quando liguei para ela pela primeira vez, não acreditava tanto que ela poderia me ajudar na reportagem. Pensei comigo: um advogado não usa tanta tecnologia no trabalho quanto uma pessoa que trabalha diretamente com isso, como é o caso do Handerson. Porém, quando ela me disse que mandava petições para o Tribunal de Justiça, pela internet, adorei. Daqui em diante fiquei mais confiante para buscar personagens para a minha história. Vencida a dificuldade em encontrar pessoas e tendo em mãos cinco boas entrevistas, minha outra odisseia foi encontrar números. Óbvio que eu precisava deles para dar consistência às minhas entrevistas. Em todas as matérias que eu lia, falavam: “o home office é uma prática que vem crescendo cada vez mais…” Isso me irritou profundamente. Mais quanto, José? Para buscar essas respostas, utilizei as pesquisas feitas nos EUA, que foram colocadas nas reportagens que eu li, tanto em uma edição especial da revista Super Interessante quanto na internet, e no site do “Pequenas Empresas e Grandes Negócios”, conheci a SOBRATT , que tinha alguns estudos feitos sobre o teletrabalho, incluindo home office. Números recolhidos e devidamente aplicados ao texto, foi só combinar tudo e ler 1500 vezes para evitar erros de informação, até porque é a primeira vez que publico uma reportagem, desde que entrei no jornalismo. Espero que gostem, que responsabilidade!!!

(Suélen Ramos Vieira Vale)

Achar pessoas que comentem sobre os leitores de e-books não foi difícil. Encontrar alguém que já possuísse um, é outra história. Em fóruns, comunidades, em conversa com pessoas que gostam de tecnologia, os e-reader são tema central de discussões. É bom, não é, quais as vantagens e desvantagens de um aparelho com menos de um quilo, capaz de armazenar mais de três mil livros e se substitui ou não o prazer de ler um livro de papel.

Pretendia falar de várias marcas de leitores de e-books, iniciando com o mais famoso da atualidade, o Kindle. Porém, era tanto para falar desse leitor que, quando parei de escrever para o Word contabilizar o número de caracteres, percebi que estava no limite da matéria. Tive que priorizar as informações, inclusive as do leitor de livros digitais da Braview, empresa brasileira que investiu no setor.

Parte disso se deu porque minha fonte principal era um usuário do aparelho da Amazon. Entrei em contato inicialmente com uma usuária, de Manaus, mas dias após nossa apresentação ela viajou para Miami e não consegui mais as informações. Como não podia esperar, procurei na internet por outra pessoa que tivesse um e-reader e, ao mesmo tempo, através de conhecidos e conhecidos de conhecidos, por alguém que tivesse uma paixão por livros e fosse contrário a leituras diversas em um aparelho. Foi interessante notar que a maioria das pessoas em fóruns comenta acreditar que a tecnologia não substitui o livro, mas que se a “onda pegar”, também quer ter um. Isso, claro, quando o preço abaixar. (Indico esse parágrafo, ou o último)

As informações foram apuradas em vários jornais, revistas e no próprio site das empresas que produzem os leitores de e-books, além das fontes. Foram muitas adições aos “meus favoritos” e viradas de página de revistas – não, eu não contei com a tecnologia touch screen de um e-reader. Mas bem que depois de tudo o que li, das fotos que vi, deu até vontade de estar com um daqueles em minhas mãos.

(Claudia Mebs Nunes)

Claudia Xavier conta detalhes de como foi sua viagem a Nova Trento, para a apuração da reportagem sobre o turismo da fé…

Esses dias falei para alguém como é incrível o fato do jornalismo nos possibilitar viajar cada dia a um mundo diferente, a um universo novo. Pois, foi justamente isso que aconteceu comigo para as matérias do Quatro. Um dia fui católica, em outro evangélica, em outro espírita, no entanto, nada mudou dentro de mim. Minto, mudou sim. Muito de mim cresceu, aprendeu com as pessoas que foram os personagens das histórias que contei. Vidas que ganharam sentido pela fé, aflições que encontraram cura no passado, um Deus que é dividido e simultaneamente tão individual, guardado de maneira ímpar por cada indivíduo, por cada fiel, por cada crença, em cada religião.

A viagem a Nova Trento não foi apenas uma apuração, isso foi desculpa. Na verdade foi uma vontade, um desejo que há muito habitava em mim. Mas foi também uma surpresa. Não imaginava que fosse encontrar tantos cristãos e todos dispostos a darem depoimentos. Esperava mais dificuldade que veio de onde parecia tudo tão fácil, como a entrevista com o prefeito da cidade que prontamente se ofereceu para responder todas as indagações e que até agora não o fez, apesar da minha insistência. Mas, voltando a minha visita ao Santuário, esta foi excelente tanto para mim e, principalmente para a matéria sobre Movimento da Fé. As pessoas que entrevistei não foram escolhidas ao acaso. Todas chegavam e se dirigiam direto à imagem da Santa Paulina, mas quem mais me chamou a atenção foi um senhor que não se aproximou da Santa, mas ficou de longe olhando fixamente para Ela. Ele, disperso, nem percebia a movimentação de fiéis ao seu redor, era como se só estivessem os dois ali: ele e a Madre Paulina. E assim ficou por instantes. Quando virou-se, fui conversar com ele e foi uma das histórias mais interessantes e bonitas que escutei. Não somente escutei como me emocionei quando vi os olhos cheios de lágrimas daquele senhor de cabelos inteiramente branquinhos que estava ali para agradecer pela dádiva de andar. Outra declaração impressionante foi o de uma adolescente vestida de forma descontraída e aparentemente punk. O depoimento simpatíssimo dela me fez entender que a fé existe em todas as idades, em todos os jeitos e costumes. Ao voltar para Florianópolis não tinha a matéria pronta, mas já tinha demonstrações de fé e uma vontade imensa de materializá-la no papel. E foi o que fiz depois de obter outras informações que julgava relevantes.

A matéria da regressão também foi uma surpresa. Não sabia que por meio dela conheceria pessoas tão tranquilas, serenas, doces. Por uma manhã permaneci no Projeto Amanhecer e participei de uma atividade que eles realizam semanalmente para pessoas com artrite. Fui recebida com muito carinho e a experiência foi valiosa. Saí levando comigo um pouco da paz e da harmonia que encontrei lá.

Infelizmente, a paz não esteve comigo em outros tantos momentos. Primeiro quando as fontes não eram acessíveis ou as informações repassadas não eram suficientes. Depois na elaboração das matérias quando inúmeras dificuldades surgiram para fazer uma reportagem, a primeira de muitas. Faltou experiência, sobrou desafio. Mas, estão finalizadas e ambas foram construídas da melhor maneira possível.

Pensar que estas realmente vão estar impressas em um jornal e que este terá uma circulação considerável certamente foi outro fator que, por um lado, estimulou e, por outro, assustou. Estímulo ao saber que é nosso nome que estará assinando aquele texto e, portanto, tudo precisava ser devidamente checado, revisado, informado. Assustou quando nos deparamos com deadline, com prováveis críticas. Mas é um primeiro passo e largo.

O importante é termos a consciência que independente do mundo que estivermos desbravando, temos que fazê-lo com respeito e seriedade. Precisamos nos vestir de jornalismo e ir a fundo em tudo o que fazemos, buscando os detalhes, o ineditismo, a relevância. Certamente, muito nestas matérias ficou para trás, sem que o nosso faro de jornalista percebesse. Precisamos, porém, aperfeiçoá-lo para ir mais além em uma próxima vez. E devemos ficar felizes porque ainda teremos outra chance por estarmos na universidade, aprendendo. De qualquer forma, devemos estar sempre em busca de um universo desconhecido, de algo que atraia o leitor e que o impulsione a parar todo o resto e se concentrar em uma leitura, do começo ao fim. É este o destino que espero que as minhas matérias conquistem: o olhar e a atenção dos leitores.

A repórter Claudia Mebs conta bastidores da reportagem que fez sobre motoristas que tiram carteira de habilitação depois dos 30 anos:

Diferente da matéria sobre os leitores de livros digitais, a pauta de Comportamento a respeito de pessoas que tiram a primeira habilitação com mais de 30 anos não foi proposta por mim. Sendo assim, o direcionamento da matéria e a procura pelas pessoas que dão vida ao assunto só começaram a ser pré-apurados no dia 21 de outubro, data em que distribuímos as pautas do jornal laboratório Quatro.

O número de motoristas que tiraram a carteira de habilitação depois de 30 anos não é tão expressivo. Os jovens entre 18 e 20 anos ainda são maioria nos cursos da auto-escola. Mas é realmente necessário um número expressivo para falar de um tema tão importante – a conquista da independência – e que faz parte da história de várias famílias? Para tanto, primeiro fiz as perguntas que considerava fundamentais para entender quais eram as razões que levaram as três mulheres que entrevistei a freqüentarem as aulas da auto-escola. Nesse período, tiveram dificuldades ou medo de dirigir? Descobri que, com todas elas, as situações eram diferentes e ilustravam as barreiras e vitórias de muitos daqueles que passam pela mesma situação.

Conheci as histórias de Simone Verzola, Beth Mafra e Simone Medeiros através de contatos com conhecidos. Foi interessante conversar com Beth e receber um “obrigada por me impulsionar a pegar o carro” depois de perguntar se ela tinha fotos dirigindo o automóvel que, na maioria das vezes, fica estacionado na garagem. Ela ainda tem medo de dirigir, mesmo após passar na prova do Detran. Ainda assim, ligou o carro e deu uma volta com o veículo para que o filho batesse fotos para a reportagem. (Indico esse parágrafo. Na verdade, fiquei em dúvida entre esse e o último.)

Quando fui fotografar Simone Medeiros dirigindo o carro próprio também escutei a versão da irmã da motorista, que a visitava no feriado. “Lembro que eu incentivei a Simone. Dizia “vá aprender a dirigir, a facilidade de ir aos lugares é muito maior”. Ela achava tão tranqüilo pegar o ônibus na esquina para ir ao trabalho, mas nem sabia como era ter um carro”. Conselho que Izabela Medeiros, filha de Simone, sabe muito bem. Nem tem 18 anos e quer aprender a dirigir assim que completar a maioridade. São histórias surpreendentes, que provocam satisfação e risadas nas três mulheres, quando lembram a trajetória que resultou na direção de seus próprios caminhos.

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