Feeds:
Posts
Comentários

Thiago Moreno

O desafio era produzir uma reportagem sobre comportamentos sexuais diferentes. Legal! Boa pauta, muito boa mesmo. Não tinha como não se divertir tentando entrevistar sadomasoquistas, zoofilistas e voyeuristas (só para citar os mais leves que pensei). E eu estava certo, foi uma das melhores matérias para apurar até essa metade da graduação. O envolvimento com os personagens aconteceu muito de repente e foi muito forte. Quando percebi, já tinha liberdade o suficiente para perguntar a um assexual se ele queria ter filhos ou se era virgem.

Essa fonte, aliás, me causou problemas logo na partida. Eu o contatei através de uma comunidade, dessas de redes sociais, na maior cara de pau: “Será que alguém aí se interessa em dar uma entrevista?”. Ele foi o único a responder. O problema é que queria ver a matéria antes de publicada, um dos maiores clichês éticos e, ao mesmo tempo, uma bela cilada para um jornalista. Eu, de minha parte, não queria perdê-lo, mas ainda assim não ia quebrar as regras básicas da minha futura profissão. Não se enviam textos para ninguém se o jornal ainda não saiu. A melhor solução era explicar e esperar sua resposta. Que fosse positiva, por favor. Ele aceitou.

Me tratou bem, respeitosa e amigavelmente e eu tentei corresponder ao máximo, assim como fiz com o praticante de D/S. E eles me fizeram pensar e repensar vários conceitos meus. Minha ideia de liberdade foi o principal. Conversar com a antropóloga que corroborou com as ideias só mexeu ainda mais comigo.

Quando finalmente consegui uma psicóloga que me falasse sobre o assunto, o sonho começou a desmoronar. Ela foi contra tudo que tinham me dito até ali e, principalmente, contra o que eu acreditava. E a cada comportamento novo que classificava como desvio eu ia me arrependendo um pouco mais de entrevistá-la, porque eu sabia que aquilo tudo teria que entrar na matéria. Eu tentei insistir, deixar claro meu contraponto, mas a mulher era inflexível. Sua ideologia era muito forte. No fim, acabei dando mais espaço para ela dentro do meu texto do que para as fontes com as quais eu concordava. O jornalismo tem desses paradoxos.

Agora, com o trabalho terminado, fico pensando no quanto eu me diverti com as experiências estranhas que vivi nessas semanas. É, acho que tem coisas que só sendo repórter para entender.

Anúncios

Willian Reis

“Não sou a pessoa que você está procurando!”. Não, não tinha errado o endereço. Pelo contrário, tinha chegado até com certa antecedência, o que é raro no meu caso. Era uma tarde ensolarada de quarta-feira, e lá fui eu, com mochila nas costas e um pretenso mapa nas mãos, à procura do prédio onde fica a Associação em Defesa dos Direitos Humanos (Adeh), de Florianópolis.

Apertei a campainha e, do outro lado, quem me recebeu foi a própria coordenadora, Kelly Vieira. Pediu pra eu esperar alguns minutos, pois atendia, naquele momento, três transexuais, se não me engano (que eram transexuais, eu tenho certeza, minha dúvida é em quantas estavam).

Havia marcado a entrevista com antecedência, o que me permitiu ignorar o imponderável e começar a imaginar como seria, a sonhar com declarações bombásticas num papo que se arrastaria por toda a tarde. A torcida pelo sucesso daquela apuração aumentou após eu ter entrevistado um frei na manhã da mesma quarta-feira. Sem agendar nada, o religioso me atendeu e conversamos longamente. Era, pra mim, um sinal de que o dia iria render.

Pra começo de conversa (é assim que encaro uma entrevista), expliquei a Kelly do que se tratava a pauta e, já de saída, perguntei como era a vida dela antes de assumir a identidade feminina. Ela, que não faz o tipo de transexual ou travesti a que estamos acostumados, ou seja, bem-humorado e extravagante, se alterou. Pensei até que desistiria da entrevista.

“Não falo, de jeito algum, da minha sexualidade”, declarou. Tentei convencê-la, apresentei todos os argumentos que me vieram, e nada. Perguntei então se teria alguma fonte pra me indicar. Ela me disse que não, que eu dificilmente encontraria. Foi quando decidi mudar o foco da entrevista. Se ela não queria falar do passado, procurei saber por quê. E aí a conversa deslanchou.

Fiz algumas perguntas sobre a Adeh, que era o que agradava a Kelly, pra mais à frente voltar a perguntar sobre a própria. Consegui algumas poucas informações sobre sua vida. Soube que cursou dois semestres de Enfermagem, mas desistiu. Foi quando meu olho brilhou. Pensei estar diante da tão sonhada declaração bombástica. Acreditei que ela ia dizer ter sido vítima de preconceito, ter sido vaiada pelos colegas no melhor estilo Geyse Arruda. Sei lá, qualquer coisa assim. “Achei o curso uma palhaçada”, foi o que me respondeu.

Aliás, “palhaçada” é uma palavra recorrente no seu vocabulário. Muito do que a academia produz sobre sexualidade seria “palhaçada”. Os debates sobre questões de gênero de que participa na UFSC também seriam “palhaçada”. Só não perguntei se ela achou o mesmo daquela entrevista.

Monique Nunes

Quando resolvi fazer uma reportagem sobre “Clube das mulheres”, só o que eu tinha era minha própria experiência adolescente, naqueles casos de fim de namoro em que você corta o cabelo e as amigas acham genial a ideia de te levar pra balada e pra vodka.

As minhas me arrastaram pra um clube das mulheres, onde me vi cercada de mulheres de todas as caras e idades, que tinham em comum os gritos escandalosos para os rapazes absurdamente malhados, que ficavam no palco dançando, sorrindo e passando a mão na própria barriga. Divertido, confesso, ainda mais com meia dúzia de vodkas. Mas agora fiquei pensando no coitado do organizador da festa, que teve que fazer contato com todos aqueles rapazes, combinar, agendar, negociar… Porque se eu, pra conseguir uns 15 minutos de conversa, sofri por três semanas, imagina o cara!

Explico: Peguei a pauta sobre Clube das mulheres e fui procurando contatos em Florianópolis, achei uma agência e mandei e-mail. Fui ignorada. Liguei diversas vezes. Fui ignorada. Um belo dia, alguém da agência me responde, pedindo pra entrar em contato de novo depois do feriado. Entrei e, adivinhe, fui ignorada. Entre e-mails e ligações ignorados diversas vezes, consegui marcar a entrevista na certeza de que tinha acabado aquela maré de “não vou falar com essa repórter”, mas o que acontece no dia da entrevista? Desmarcam.

Maldade desses catarinenses, custa falar com a estudante de jornalismo aqui? Poxa, eu sou estudante mas sou legal, me deem bola! Paulistas são mais legais, vou pra São Paulo no fim de semana mesmo, marcarei uma entrevista com o dono do clube das mulheres de lá. Ligo, me atendem. Mando e-mail, respondem. Entrevista marcada, tudo certo, falei que paulistas eram legais. Aí, sou traída pelo trânsito de São Paulo. É, paulistas são legais, mas tem que enfrentar o trânsito todo dia e, às vezes, simplesmente não dá tempo de chegar na entrevista porque outro compromisso importante espera depois.

Mais dois dias, algumas ligações pra agência e 17 ligações (marcadas no celular!) pro gogo boy Rodrigo Freitas… finalmente, consigo 15 minutos de conversa. O lado bom é que foi divertida a entrevista. Descobri, por exemplo, que mulheres gostam de homens fantasiados e gays querem é pouca roupa.

Agora eu já sei, no dia em que uma amiga resolver casar, começo os preparativos da despedida de solteira junto com os do casamento, porque ô dificuldade que é conseguir um gogo boy.

 

Milena Lumini

O tema era sexo. E enquanto os colegas apuravam matérias que tratavam de prazer e mostravam como o sexo transparece vitalidade – seja ele tântrico, ensaiado, sustentável ou precoce –, a mim coube a missão de tratar de dor e morte. Câncer não é motivo de orgulho, não é algo que se declara nas redes sociais e raramente é falado entre amigos. Principalmente câncer de pênis, uma doença que pode deixar o homem sem o órgão que considera mais importante, esse sim motivo de orgulho.

Com um tema delicado, eu que não gosto de ser surpreendida numa entrevista, reuni bastante informação sobre a doença. Mal sabia que as dificuldades não estavam exatamente no assunto da matéria. Nos intervalos da pesquisa, contatei urologistas oncológicos. Procurei na universidade, em clínicas, mandei emails – a maioria não respondidos.

Fiquei praticamente íntima da Laine, secretária do departamento de urologia da Faculdade de Medicina do ABC, onde trabalha o doutor Antonio Carlos Lima Pompeo, tantas foram as vezes que conversamos. E acho que gastei horrores de ligação interestadual. Marquei a entrevista para um dia e depois outro, depois outro e depois mais tarde, quando não fui atendida. Mas eis que, prestativo ou assustado pelo número de chamadas perdidas, o doutor retornou minhas ligações. Tivemos uma conversa esclarecedora no intervalo de uma aula, horas antes de outra entrevista.

Conseguir falar com o doutor Luis Felipe Piovesan foi um misto de frustração e alívio. Peguei o ônibus errado, tomei chuva, já eram cinco da tarde e eu mal tinha almoçado. Atrasei e contei com a boa vontade do médico de me esperar. Ao chegar ao consultório, ele já tinha ido embora. De volta pra casa, indignada com minha falta de planejamento, blasfemando o trânsito e a chuva, o doutor me liga. Diz que a secretária se enganou, ele não havia ido embora e nem, creio eu, repreendido o atraso. Marcamos para o dia seguinte.

A conversa foi boa e eu torcia para que ele pudesse contatar um paciente que topasse contar sua experiência para o Quatro. Pensei que essa era a melhor forma de conseguir um relato. Nenhum paciente quis conversar. Compreendi. Muitos homens que desenvolvem a doença sequer vão ao médico ao detectar os primeiros sintomas. É preciso coragem pra enfrentar os tabus, rememorar uma situação incômoda e relatá-la a um desconhecido.

Se você leu esse relato até aqui, pôde concluir que isso me levou um tempo. E na produção de um jornal, tempo é um artigo que está sempre em falta. Mas eu não desisti do personagem. Um médico ficou de me passar contatos por email. A assessoria de dois hospitais de São Paulo prometeu enviar nomes entre segunda e quarta feira (dia 24). Moral da história: esperança de repórter, especialmente de repórter novato, nunca morre, mas o tempo de apuração e redação se esgota. Creio que consegui delinear bem o tema, explicar a doença e incentivar a prevenção. Mas o relato, esse vai ficar de fora da reportagem. Uma pena. Uma pena mesmo. Espero poder falar com um paciente e divulgar a história aqui no blog ou em outro veículo.

Stephanie Pereira

Antes de escolher a pauta sobre a atual superexposição do tema “sexualidade”, confesso que fiquei com um pouco de receio. Receio de que eu não encontrasse as fontes certas para conversar comigo sobre o assunto, receio de que a matéria rendesse muito, ao ponto de, ao tratar de um assunto tão amplo, eu corresse o risco de me perder na hora de organizar as idéias. Mas foi exatamente este risco que me despertou para o tema. Pensei comigo mesmo: “se a proposta de falar sobre sexo no Quatro é também uma forma de quebrar nossos próprios preconceitos, porque não tentar?”

Quando comecei a apurar a matéria, pareceu que meus medos estavam se tornando realidade. Com o deadline já estabelecido, vivi uma busca desesperada por fontes, e, nesta fase de tentativas, conversei com pessoas que diziam “não ter conhecimento suficiente”, ou que “andavam muito ocupadas” e que eu deveria “ligar mais tarde” ou até mesmo que “não querem falar em uma matéria sobre sexo”.

Os prazos iam se aproximando, e felizmente, no fim, a busca teve bons resultados: encontrei pessoas dispostas a colaborar, e aprendi muito com suas diferentes opiniões. Acho que este foi o ponto mais positivo da matéria. Foi incrível poder perceber diferentes visões de mundo a respeito da sociedade.

Na hora de escrever, lembrei de uma frase que ouvi de Otávio, filho de uma das fontes que aparecem na reportagem. Ao explicar para ele o assunto da matéria, ele me disse que eu estava “tentando abraçar o mundo” com um tema tão complexo. Foi exatamente isso que senti ao escrever. Confesso que senti dificuldades ao entrelaçar todas as idéias das diferentes fontes. Eu tinha um caderno cheio de anotações e uma página em branco para preencher.

Os dias em que me dediquei à apuração da notícia tiveram direito a noites em claro, fontes ocupadas, ligações para outros estados, caixa de entrada do email lotada, cobranças feitas pelo professor, editores, e por mim mesma. Foi uma verdadeira luta contra o relógio e o cansaço. E qual é o resultado de tudo isso? Acho que é essa sensação estranha e ao mesmo tempo muito boa de… “será que os leitores vão gostar?”

Flagrantes de alunos da turma de 4ª feira, clicados pela monitora Fernanda Martinazz:

Este slideshow necessita de JavaScript.

 

 

 

Jéssica Butzge

Propor uma pauta que abordasse sexo, não fosse clichê e se encaixasse na editoria de Economia. Foi esse o primeiro grande passo para que a matéria migrasse, de alguma forma, do lugar comum para o pouco conhecido. A parte mais penosa foi a busca dos dados. E quando se fala em números, cifras bilionárias, qualquer zero ou vírgula mal colocados podem acabar com o sentido da matéria inteira. E com a credibilidade do repórter, editor e do jornal.

Nunca havia escrito texto algum de Economia, apenas lido um livro muito bom que tentava dar não suporte, mas incentivo a fazer diferente, tornar a reportagem menos fria, aproximá-la de um leitor que talvez não faça ideia do que signifique a sigla PIB, mas que saiba o quanto isso é importante para o país.

Como o assunto era basicamente o custo da aids para o governo Federal, minha fonte primária e primordial seria o Ministério da Saúde. O grande problema é que os órgãos são todos fragmentados. São centenas de departamentos, coordenadores, núcleos, institutos e profissionais. E se engana quem pensa que é só ligar pra assessoria de imprensa que está tudo lá.

A maioria das informações foi apurada setor por setor, encomendadas às pressas a uma estudante de jornalismo, e nada mais que isso. As informações demoraram pra chegar, algumas talvez nunca apareçam em meu e-mail, outras aprendi a pesquisar em um sistema de dados do Ministério da Saúde. O importante é que sempre há uma maneira de encaminhar a matéria. O que mais senti falta na reportagem foi do lado humano, da proximidade.

Conseguir uma fonte portadora de HIV não foi fácil. Os centros de tratamento não são autorizados a passar informações dos pacientes, a maioria não quer falar. Acabei conhecendo pela internet alguém que achou melhor ser chamada de Bela. Uma paciente soropositiva que deu um sentido, se não ao leitor, mas ao meu fazer jornalismo. Não importa o assunto, sempre tem alguém em algum lugar esperando para ser ouvido, para expor suas convicções, sua história. Em relação à burocracia do governo, aprendi uma grande lição que vale a pena repassar: tenha paciência e persistência. Até o fim. Nossa profissão também é feita disso.